quarta-feira, 23 de julho de 2008

Chirindzene: A mata sagrada das proibições


A MATA Sagrada de Chirindzene, um local onde quase tudo é proibido, nesta Mata Sagrada, localizada no distrito de Xai-Xai, não se deve entrar sem autorização dos lideres locais, é proibido manter relações sexuais, usar chapéu, urinar, defecar, acender fogo, apanhar lenha, caçar, pôr gado a pastar, trepar árvores… não é proibido comer frutas da mata, mas coma ali, deixe o resto e vá embora.

Quem ousar entrar sem a autorização não sai mais do local, porque depois desconhece o caminho a tomar para o efeito। O casal que se envolver em relações sexuais nunca mais se desliga um do outro.

Por volta da década de 1990, um indivíduo teimou em entrar sem antes pedir autorização e não mais reapareceu, conta-se।

Normalmente, o infractor das normas só pode ser recuperado (voltar a situação normal) quando se realizar uma cerimónia tradicional dirigida por alguém da família Matavele, um clã local tido como o primeiro a se estabelecer em Chirindzene।

A história de Chirindzene inicia por volta de 1870, com a chegada no local do primeiro Matavele, guerrilheiro de uma das guerras dispersas de resistência movidas por moçambicanos contra o colonialismo português।

Ao reconhecer a fertilidade dos solos, ele decidiu ali fixar a sua residência, procriar filhos e os distribuir espaços nas zonas circunvizinhas de Chacula, Mabawani, Mavele, Munguelani, Muchalucuane, Nguleleni, 3 de Fevereiro e Xipenhe।

À Mata Sagrada, ora com cerca de seis hectares, coube o estatuto de sede regional, onde se realizavam as cerimónias tradicionais de Kuphalha, destinadas a pedir aos antepassados a bonança nas colheitas, chuvas e soluções para ultrapassar diversas crises, dentre elas as pragas que dizimassem culturas।

Passados mais de cem anos, a cerimónia de Kuphalha ainda acontece no local, realizada no tronco de uma árvore frondosa de nome Xakwara, enrolado por uma capulana velha de cor branca। A cerimonia e' dirigida por alguém pertencente a linhagem Matavele.

Uma galinha é sacrificada e o seu sangue espargido próximo do tronco da árvore e sobre o mesmo chão jorra-se vinho। Uma segunda galinha é introduzida ainda viva no interior de um buraco na árvore donde volta a reaparecer quatro ou seis dias mais tarde.

Isso acontece numa simples cerimónia de pedido de permissão para visitar a pequena floresta (acredita-se que só assim se consegue protecção: ninguém se perde ou picado por uma cobra ou outro animal existente no interior da mata)।

Existe uma outra cerimónia de maior dimensão destinada a pedir aos antepassados a ocorrência da chuva, ajuda no combate as pragas, sucessos na colheita, entre outros benefícios, mas este tipo de ritual acarreta custos elevados।

“É preciso ter cabeça de vaca preta, ovelhas, cabritos, galinhas e outros vários produtos resultantes da colheita”, explicou Benete Cumbuza, bisneto do Matavele।

“Nós sabemos quando é que a cerimónia tem sucesso, esta, por exemplo, não saiu bem। É preciso o dirigente do ritual estar satisfeito e realizar bem o seu trabalho. Outra coisa é que a actividade iniciou tarde”, acrescentou.

Quando as cerimónias de grande dimensão ocorrem com sucesso, logo depois do ritual acontece uma queda de cobras da árvore xakwara, mas elas não picam a ninguém।

A última vez que ocorreu um cenário do género foi em 1958, segundo conta a fonte, mas mesmo depois deste ano cerimónias desta natureza aconteceram até 1988। Desde este ano nunca houve “cerimónia grande”.

Próximo à mata de Chirindzene existe um caminho que se acredita ter sido usado por Eduardo Mondlane, primeiro presidente da Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo) e arquitecto da unidade nacional, nos princípios de 1940 quando caminhava com destino a Maputo saindo de Chicumbane, a escassos quilómetros dali।

No local existe uma árvore simbolizando a que acolheu Mondlane quando ali parou para tomar uma refeição।

Outro local histórico é a localidade de Chaimiti, distrito de Chibuto, onde foi capturado Ngungunhane, rei do Império de Gaza, pelos conquistadores portugueses, a 28 de Dezembro de 1895, facto que marcou a queda final do reino।

Ngungunhane possuía uma residência em Chaimiti, a 10 quilómetros de Chibutu, uma espécie de comando-geral daquele movimento de resistência contra a ocupação portuguesa। Nessa casa, ele viveu os seus últimos momentos de vida com as suas três esposas (Sonia, a primeira, Manhaiosse e Phatlhiwa) junto com o seu filho Godide (na altura menor de idade)

Segundo reza a história, ele foi capturado quando teve de regressar a casa para recuperar o seu filho que havia sido esquecido pela sua mãe Sonia।

“Se não tivessem esquecido Godide, de quem Ngungunhane gostava muito, talvez ele não tivesse sido capturado”, reafirmou um dos tetranetos daquele resistente da ocupação portuguesa ao sul de Mocambique que, depois de capturado, foi preso nos Açores, em Portugal, onde veio a perder a vida em 1906।

Falando aos visitantes, um bisneto de Ngungunhane reafirmou que a traição foi um dos factores por detrás da decadência e queda do Império de Gaza, cuja sede encontrava-se em Mandlhakazi, a cerca de 80 quilómetros de Chaimiti।

O bisneto reconheceu também a ilegitimidade de alguns excessos cometidos pelo seu bisavó.

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